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SDC Entrevista #3: Joana Chaves
Ela canta o amor em todas as suas formas, e provavelmente vai se tornar sua artista 013 favorita
SDC Entrevista #3Joana Chaves é o momentoCria da periferia da Baixada Santista, Joana viveu sua infância nos anos 2000 entre o Gleba II e Humaitá. Canceriana, nostálgica e filha mais velha de três irmãos, sempre aproveitou a cultura da rua; relembra Calcinha Preta e Banda Djavú como parte de sua vida. ‘Cheia de querer alguém’, é apaixonada pela vida, pelas pessoas e pelas coisas. Joana compartilhou suas vivências em entrevista para Sons de Conflito, e deu spoiler sobre próximos lançamentos. Confira: | ![]() Foto: Reprodução Instagram/Paulo Mendes |
O papel de Joana, da peça ‘Gota D’Água’ (Chico Buarque e Paulo Pontes), sempre habitou o imaginário dos sonhos teatrais da artista que apresento aqui. Durante anos, a possibilidade de sequer ensaiar aquela personagem foi tirada dela. Mas o tempo, que sabe tecer o melhor destino, fez nascer Joana Chaves, que, ao escolher seu próprio nome, pareceu devolver a si mesma o direito de ser Joana.
A trama de Gota d’Água coloca no centro uma mulher do subúrbio que vê sua vida desmoronar quando Jasão, o homem que amava, a abandona para se casar com a filha de um poderoso empresário. Ferida pela traição e pela desigualdade que a cerca, ela transforma a dor em fúria e segue um caminho marcado por escolhas radicais, que desembocam em tragédia. Já a nossa Joana Chaves, carrega algo desse mesmo ímpeto visceral, mas transforma suas vulnerabilidades em força criativa. É justamente na exposição de suas fragilidades que ela se encontra comunicando com o público não só o peso da dor, mas também a beleza de quem ousa enfrentar a vida de frente.
Hoje, Joana é atriz, cantora, comunicadora e produtora cultural da Baixada Santista. Travesti e formada em Artes Cênicas, ela tem dedicado sua trajetória a conectar teatro, música e coletividade em projetos que dialogam com sua vivência e com as urgências de seu tempo. Seu mais recente trabalho, o espetáculo musical Nunca Foi Sobre Amor (N.F.S.A.), é prova disso: um repertório que atravessa por uma pergunta que parece perseguir sua própria biografia: o que é o amor para você?
Uma artista que nasce da coletividade
A trajetória de Joana é marcada por uma virada essencial: o encontro com a força da coletividade. Desde criança no teatro, ela reconhece que por muito tempo circulou em uma espécie de bolha, sem se enxergar de fato inserida no cenário cultural da Baixada Santista. Foi somente em 2022, ao integrar o programa Colaboradora – Artes e Comunidades, do Instituto Procomum, que essa percepção mudou.
Naquele espaço, Joana encontrou artistas como Allure Dayo, Preta Jô e Neguinha Braba. Eles se tornaram referências e parceiros de criação, mostrando que a arte colaborativa é, muitas vezes, o que sustenta a produção cultural em territórios onde faltam recursos. Para Joana, dividir processos e somar forças com outros artistas fez nascer uma nova compreensão: a de que sua própria caminhada só faz sentido se estiver atrelada ao coletivo.
O convívio com esses nomes também lhe trouxe uma consciência mais aguda sobre as contradições do mercado cultural local. Entre apoios escassos e editais que obrigam amigos a concorrerem entre si por pequenos recursos, a experiência colaborativa revelou-se ainda mais necessária para ela.
Corpos visíveis, memórias invisibilizadas
Ser travesti e uma pessoa racializada na Baixada Santista foi também um gesto de pesquisa e enfrentamento. “Quando eu passo a me entender como um corpo travesti, eu olho para os lugares e falo: gente, eu sou a única aqui. Rola um apagamento sobre as artistas travestis na Baixada, você não vê esses corpos transitando pela Cidade à luz do dia”, afirma. Joana recupera a memória cultural de Santos para mostrar essa ausência: “Nos anos 70 e 80, o Centro de Santos era a nossa Broadway, com as transformistas”.
Nos anos 90, o cenário começou a se transformar com o boom das drags e o surgimento de bailes, festas e concursos que popularizaram a cena T de Santos. Muitas artistas, inicialmente reconhecidas como drags, começaram a se entender como travestis, assumindo identidades antes invisibilizadas.
Apesar de toda essa história, muitas dessas narrativas foram apagadas ou esquecidas ao longo do tempo. É nesse contexto que Joana Chaves se posiciona: sua trajetória atual é também um ato de reparação histórica. Ao trazer sua presença para palcos, estúdios e projetos coletivos, ela conecta sua obra à memória das travestis que abriram caminhos antes dela, reafirmando que Santos sempre teve corpos que resistiram, brilharam e criaram cultura mesmo à margem. “Eu quero resgatar isso”, afirma em nossa entrevista, em um tom sério e como quem mira em um objetivo certeiro.
Joana defende, seguindo a linha Sankofa, que é preciso olhar para trás, pra conseguir chegar na frente. Para ela, é fundamental que as novas gerações conheçam a história LGBTQIA+ da Baixada Santista como continuidade. Entender quem abriu os caminhos, quais lutas foram travadas e quais conquistas foram alcançadas garante que essa narrativa siga viva e se fortaleça.
Nunca Foi Sobre Amor…
A partir de toda essa vivência, nasce o espetáculo Nunca Foi Sobre Amor. O que começaria como uma voz e violão intimista, virou show com faixas autorais e releituras de referências musicais. “O projeto nasceu a partir de uma frustração amorosa, em uma relação que não deu certo. Nesse lugar do desamor, eu tentei resgatar a força das minhas irmãs. Eu quero ser o sonho que elas tiveram. E eu sinto que sou. Eu não vou cantar só sobre dor, vou cantar de tudo”.
O título, para Joana, é também jogo de linguagem: “O ‘nunca’ é riscado, porque no fim das contas pode ser ‘Foi Sobre Amor’. Gosto de brincar com isso. Porque o amor é uma delícia, dá borboletas. Mas só o amor não paga conta de luz, não sustenta sozinho”.
Se a dor foi ponto de partida, foi o coletivo que deu corpo à obra. Para fazer o espetáculo acontecer, Joana reuniu uma equipe de 15 artistas da Baixada Santista, entre figurinista, fotógrafo, diretora artística, músicos da banda e outros colaboradores que se juntaram para somar. A maioria do grupo é formada por mulheres, menos sua banda, propositalmente. Como resume Joana em uma frase que atravessa o sentido de todo o projeto: “O lugar que nasceu da falta de amor, me mostrou que existe, sim, amor”.

Joana Chaves tem equipe formada por, principalmente, mulheres 013 (Foto: Paulo Mendes)
Legado e futuros caminhos
Para além do presente, Joana mira no futuro com um desejo claro: abrir portas. “Quero deixar possibilidade para as futuras gatas trans e travestis que conheçam a arte de atuar. Que elas não só fechem papéis onde a travesti morre no final ou é retratada como drogada. Eu quero deixar um lugar de continuidade”.
Entre os próximos passos, está o lançamento de um single até o final do ano. “As pessoas pedem muito minhas músicas no Spotify. A gente quer começar com um single para abrir outros públicos. Mas eu escolhi uma canção que fala sobre mim, sobre minha vivência. Acho que é o jeito certo de começar”.
…Foi Sobre Amor
Se em Gota d’Água a Joana personagem afundava no desespero de um amor perdido, Joana Chaves faz da dor combustível para seguir criando. Sua resposta para a pergunta que guia seu espetáculo - o que é o amor para você? - talvez esteja na própria maneira como ela insiste em existir, cantar e compartilhar. O amor, para ela, é necessidade, coletividade e transformação. Mas, como ela mesma diz: amanhã essa resposta pode mudar.
![]() Fotos: Reprodução Instagram/Paulo Mendes | ![]() |


