SDC Entrevista #1: Neguinha Braba

Diretamente do Morro da Nova Cintra, a rapper narra realidades e abre caminhos na cena 013

Aos 25 anos, Neguinha Braba, moradora do Morro da Nova Cintra, em Santos, cresceu em uma família de artistas e teve o primeiro contato com a música através do samba. Em 2021, entrou para a cena do rap na Baixada Santista, escrevendo suas próprias letras e utilizando-as como forma de expressão. No rap, encontrou um espaço para abordar questões raciais e sociais, transformando suas vivências em composições que dizem sobre a realidade ao seu redor. Ela é uma das maiores vozes que temos em Santos, com rimas afiadas e extremamente inteligentes. Seguindo o fluxo de mulheres 013 incríveis que você PRECISA ouvir, confira a entrevista concedida por ela ao Sons de Conflito:

Como foi seu primeiro contato com a música?

Eu venho de uma família que faz música. Meu pai tinha um grupo de samba quando era mais jovem. Mas eu estar dentro do movimento, participando como artista, foi a partir de 2021, onde eu comecei a andar com a rapaziada do rap. Isso foi pela vontade de querer fazer alguma coisa da vida. Comecei a escrever música e dar atenção para o que eu estava sentindo, fui atrás de procurar para ver se era isso mesmo. Fazer rap pra mim é um presente da vida. Mas é algo mais do que fazer música, sabe? É um presente ancestral que eu ganhei, para eu poder fazer alguma coisa através disso. É como eu falo sobre minha cor, eu falo sobre... Os ancestrais, de fato. Acho que é o único caminho que eu vi que posso falar sobre essas coisas.

Vi que o samba teve um papel importante na sua formação musical, mas dá para sentir no seu rap uma influência do papo reto que o funk consciente raíz da Baixada Santista trazia. Quais são suas maiores referências musicais?

O samba é uma grande influência porque é o começo do rap, né? Antes a gente fazia rap, mas através do samba. E eu gosto de escrever com carinho, fazer rap com carinho, sabe? Eu falo que nós, mulheres, deixamos um toque especial na música quando falamos da realidade. Eu tento usar o carinho do samba, mas um pouco da revolta do rap. Eu uso o funk da Baixada [Santista] também, um movimento que trouxe a realidade cruel das periferias da região. E eu acho que é importante a gente trazer um pouco dos antepassados para a gente ser lembrado. Mas curto muita coisa do pop também. Eu gosto da Ariana Grande, sou muito fã, gosto da pegada dela. Gosto da Beyoncé e Bruno Mars. Mas também gosto do Hariel, do MC Kevin. Eu tento usar muita coisa no meu rap, e tento deixá-lo mais original com tudo que eu aprendi através desses estilos.

Temos diversos MCs e rappers homens que conseguem viver unicamente da arte, enquanto é difícil ver uma mulher do funk ou rap conseguindo acender financeira e socialmente. Qual a sua visão sobre o espaço que as mulheres ocupam na música 013?

Desde que eu comecei a fazer rap, eu já sabia que tinha o machismo inserido. Antes de eu ser artista, convivia com a rapaziada e via o quanto eles eram machistas. Então eu tive que entrar na cena sendo bem chucra, sabe? No começo a gente vai deixando levar algumas coisas, só que eu tive que vir com dois pés na porta, sem abaixar a cabeça pra ninguém, sem eu mesma me diminuir, ou também não escutar conselhos de pessoas frustradas. Tive que acreditar muito em mim. Porque muita gente já desacreditou, muita gente não botou fé desde o começo, e se não fosse eu para acreditar… Então é muito difícil ser artista e mulher, ainda mais uma mina retinta e periférica. Para estar nesse movimento, você tem que ser cabeça e acreditar no seu trampo, porque os caras não vão abraçar de primeira. Eu não dou liberdade pra falar de assuntos íntimos e pessoais. Para ser mina no rap, não tem que dar moral pros caras. A mina tem que ser constante, porque é um ambiente que vai ter muita provação, vão ter muitos desafios... A gente vai escutar muita merda sendo mina. Ela tem que acreditar muito em si e acreditar menos no que os caras falam, escutar muito mais as minas. Porque querendo ou não, é uma união que a gente tem que ter. Porque os caras já são unidos, então as mulheres precisam se unir muito mais e criar um movimento.

Em ‘Neguinha Braba Ao Vivo no Estúdio Vol.1’, você relata que pediu ajuda ao Allure pra gravar seus raps, porque estava se sentindo muito sozinha dentro da cena musical; o próprio Allure já disse que os artistas 013 são uma família. Como você enxerga essa relação com os artistas daqui? Essa coletividade foi importante para seu desenvolvimento como rapper?

Eu conheci o Allure no Instituto Procomum, em 2022. A gente fez um curso e ele se tornou irmão. Ele falou que eu sempre poderia chamá-lo para qualquer trampo, foi super aberto e super aceitou a ideia de fazer alguma coisa ao vivo. Saber que tem pessoas na Baixada que estão dispostas a ouvir o trampo e colaborar com você é muito importante. É muito bom você ter uma roda de pessoas que fazem a mesma coisa que você, assim, você não fica longe do que quer. Então eu tô na cena, tem o Allure, tem a Preta Jô, o Chagas… Tá ligado? Tem o HARD, e outros artistas que eu sou muito fã da Baixada. Luan da VP também, que é meu parceiro. Isso me faz querer fazer muito mais, porque eles mostram que também estão dispostos a fazer a parada. Estar com pessoas que se inspiram no mesmo sonho, na mesma vontade, é muito importante. Então todo artista, independente do que estiver fazendo, tem que ir pro seu nicho, tem que buscar um ambiente onde a sua arte seja valorizada.

Nesse mesmo vídeo você disse que o rap te deu educação. De que forma a música te ensinou e te transformou? Qual o papel do rap na sua vida?

Eu perdi minha mãe em 2019, então fiquei sozinha na vida. Comecei a ficar na rua, a fazer rap na rua, então eu aprendi muita coisa com ele, sabe? Aprendi como eu posso chegar, como eu devo chegar, como eu posso falar com as pessoas. Eu era uma pessoa quieta, uma pessoa fechada, e comecei a me reconhecer mais também como pessoa na rua, então fazendo rap eu aprendi muita coisa. Ele foi minha base da vida adulta, onde eu fiz faculdade - minha faculdade foi o rap, foi a rua. O rap me ajudou, e está me dando a oportunidade de poder sonhar, de poder querer ser algo na vida, trabalhando com o que eu amo. Me fez encontrar um caminho. então eu dou muito valor a isso, muito valor à rua, muito valor ao movimento que, realmente, me transformou em vários sentidos.

A cidade de Santos é bem conhecida no meio da música. Temos artistas que têm visibilidade nacional, como Charlie Brown Jr. Porém, a população também esquece de ver o morro como um lugar cheio de talentos. Qual a sua relação com o morro de Santos, como ele te moldou como artista e o que falta para ele ser enxergado?

Sou do morro desde que eu nasci, sou cria real daqui. O que falta é parar de ver aqui com um olhar negativo de favela, periferia, sabe? Onde a mídia só mostra que tem tráfico. Santos não foi criada e pensada para falar sobre o morro, foi criada para focar em praia. E eu, como moradora daqui, fazendo rap e entendendo a importância do movimento para a periferia, quero levar o nome do morro, da música, da arte de Santos, como também algo cultural para a Baixada Santista. Sabemos que tem Charlie Brown Jr., mas o Charlie Brown Jr. não chegou no morro. Tem muito funk, e o rap, que é predominante aqui. Então a gente está querendo botar a cara, ressignificar o que é o morro na Baixada Santista, o morro de Santos. Morro de Santos, que é um lugar onde tem paisagens, tem lugares bonitos pra ver, artistas bons, tem atores, tem cantor, tem produtor. E é um lugar onde as pessoas também querem mostrar o seu território. O morro é um lugar onde eu estou botando a cara pra mostrar o quão cheio de cultura ele é. Também faz parte da cidade. Não é um lugar paralelo ou distante, tá na cidade e tem que ser visto.

Você sempre fala sobre abrir caminhos para os seus. O que isso significa?

É sobre saber que o rap não é só nosso. Penso muito na base das crianças. Quando eu era criança aqui na quebrada, não tinha nenhum artista, não tinha nenhum cantor, alguém que incentivava a arte. Eu sinto que fui colocada nessa missão para poder abrir caminhos para eles enxergarem o que é a arte, porque a boca [de tráfico] é aqui do lado. Virou ali, e já tem o tráfico. Os moleques passam de arma, então as crianças têm que ter alguma coisa para ver o que é a arte, para ter o primeiro contato, porque aí os caminhos ficam abertos para o futuro. Falo que o rap é escola por isso. A gente recebe de graça o movimento, então temos que devolver para a comunidade onde a gente reside. Tenho que pensar na base, pensar nas crianças. Mas ter responsabilidade de que outras pessoas também vão ver sua arte, vão se inspirar. Então é fazer a arte certa, para ser inspiração para a molecada da quebrada.

Por fim, para as pessoas que não te conhecem: Qual música sua é uma boa porta de entrada para conhecer Neguinha Braba e por quê?

Uma chamada “Mó Ódio”. Era para ser uma música de revolta, acabou saindo um conforto. Eu gostaria que as pessoas conhecessem esse lado do rap, onde ele abraça, onde o rap fala que você tem esperança, que independente de estar no trabalho, no busão, independente de estar no ódio, você consegue, sim, achar motivo de esperança para viver. Tento passar um pouco da minha realidade, um pouco de carinho. E “Mó Ódio” é a música que eu consigo falar sobre as coisas que eu passei, olhando também um pouco os outros na quebrada. Eu sinto muito as coisas e consigo... eu sinto que consigo repassar, e essa música é a que mais me expressa.

Crédido da foto de capa: Reprodução/Instagram @bxd1.000