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A era de ouro do pop está de volta?
Depois de anos de minimalismo e autossuficiência, o pop volta a abraçar o exagero, romance e a diversão
Talvez você também tenha sentido: o pop está diferente. Ou melhor, está voltando a ser divertido. Aquela sensação de acompanhar o lançamento de um clipe, comentar performance, discutir looks, torcer em premiações e criar teorias no Twitter - tudo isso parece estar de volta. Depois de um longo inverno dominado por trends de 15 segundos, o pop volta a ter cheiro de evento.
Os girl groups, por exemplo, nunca desapareceram de fato, mas a febre tinha morrido. Ficaram anos sobrevivendo à base de nostalgia e fórmulas recicladas. Agora, a engrenagem voltou a girar. Reality shows como Building the Band (que lançou o 3quency) e The Debut: Dream Academy (responsável pelo KATSEYE) reacenderam o formato, lembrando o impacto que The X Factor, por exemplo, teve com Fifth Harmony, Little Mix e vários outros. Só que agora há uma diferença essencial: diversidade. As novas formações já não seguem aquele molde engessado das cinco meninas brancas, magras e norte-americanas. Hoje o pop se permite enxergar outros corpos, tons e sotaques como parte legítima do espetáculo, e isso muda tudo na forma de se identificar com ele.
Enquanto isso, nas letras, um novo (ou velho?) movimento começa a ganhar espaço: as mulheres voltaram a falar que querem, sim, ser amadas. Depois de anos de empoderamento autocentrado - “sou suficiente”, “não preciso de ninguém” -, algumas artistas estão cantando o oposto, e sem medo de parecer vulneráveis.
Raye, por exemplo, pergunta Where Is My Husband, e o mais interessante é que essas narrativas não soam submissas ou retrógradas. O pop, que já teve Katy Perry protagonizando os melodramas românticos e Meghan Trainor escrevendo listas de exigências para o amor ideal, agora reaprende a lidar com a carência de um jeito maduro. Ser independente nunca significou não desejar companhia.
Nos palcos, o minimalismo está sendo assassinado a olhos vistos (finalmente). Tate McRae fez o VMA parecer um clipe da MTV de 2013: coreografia afiada, iluminação dramática e energia que faz o público levantar, levando a internet a chamá-la de “nova Britney”. Doechii, no Grammy, entregou teatralidade, dança e presença, tudo o que faltava na era dos shows “contidos”, em que artistas se limitavam a andar pelo palco com cara blasé de quem apenas cumpre um protocolo chato feito por outras pessoas que também só cumprem tabelas.
A geração atual está devolvendo ao pop o que ele sempre teve de melhor: performance. Coreografia, conceito, espetáculo. Chega de ficar parada no palco e dizer que é atitude, A gente gosta de quem sua horrores, entrega, dá a vida, faz história. Um exemplo disso é o cantor Beenson Boone, no último Grammy Awards, que chegou dando mortal e fazendo uma troca de looks com macacão apertadinho. Pessoalmente, não sou fã do estilo de música dele, mas ele comunicou: se você não vai lembrar de mim pela minha música que não te agrada, pelo menos vai lembrar por eu ter dado tudo de mim no palco.

O bofe simplesmente deu a vida (Foto: Reprodução)
E o YouTube, hein? Quem diria que depois de perder espaço para o TikTok e o Instagram, a plataforma voltaria a ser o centro do jogo. Os clipes voltaram a ter importância: com estética pensada, narrativas bem dirigidas e milhões de views em questão de dias. Aquela espera pré-lançamento, o contador de estreias, os fóruns comentando cada cena… tudo isso está ressurgindo.
Com tudo isso junto, girl groups renascendo, mulheres performáticas, romantismo honesto e estética de videoclipe, não é surpresa que as premiações voltaram a ser interessantes. Elas, que andavam previsíveis, voltaram a render assunto, memes, debates e até brigas de fandoms. As pessoas estão assistindo de novo. Talvez porque, por um breve momento, o pop recuperou o que sempre o fez grande: a sensação de que algo importante está acontecendo.
Fiz um post exatamente sobre esse tema no TikTok (@raphaellasantucci), e recebi o seguinte comentário:

E faz todo sentido: o pop sempre explode em tempos de crise. É quase uma resposta coletiva ao caos. Quando o mundo pesa, a gente precisa voltar a sonhar. Nos anos 2000, entre recessões e guerras, o pop falava de baladas, glamour e amor idealizado. Agora, com o planeta novamente em colapso (econômico, político, emocional), o pop volta a ter essas práticas. No fim das contas, o pop é cíclico porque o escapismo também é. E, particularmente, eu estou adorando essa fase do pop.