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SDC Entrevista #2: DJ Pedro Gegê
Formado em música clássica e filho de sambista, ele virou dono da maior festa de funk em Santos
Pedro Gegê é um artista que vem deixando sua marca na cena musical da Baixada Santista. Começou na música bem cedo, influenciado pelo pai, que era compositor e cantor de samba-enredo. Cresceu entre ensaios de escola de samba e partituras de música clássica, o que deu a ele uma base musical e uma visão sobre ritmos e sonoridades. Do violino à discotecagem, ele encontrou no funk seu verdadeiro espaço, misturando referências e criando sua identidade com a mistura de todos os universos musicais que o formaram.
Hoje, além de DJ, Pedro é idealizador da Fuck Party, festa fechada de funk mais popular de Santos para o público jovem. Mas chegar até aqui não foi fácil. Ele já viveu os desafios de ser artista independente, enfrentou preconceitos contra o funk e aprendeu na marra a administrar um evento que virou sucesso na cidade. Com uma trajetória que passa por orquestras, bailes e pistas de dança, Pedro Gegê movimenta cultura na cidade e continua - e constrói - um legado. Confira a entrevista na íntegra, concedida ao Sons de Conflito:

DJ Pedro Gegê, criador da maior festa fechada de Santos (Foto: Gustavo Trotta)
Como foi seu primeiro contato com a música? Você cresceu em um ambiente musical ou foi uma vocação que descobriu sozinho?
Meu pai é compositor de samba-enredo e cantor, então a música sempre esteve presente na minha vida. Desde que eu era bebê, acompanhava meus pais no Rosas de Ouro, o que me introduziu a esse universo. Aos nove anos, ingressei na escolinha de música da Orquestra Pão de Açúcar, onde comecei a desenvolver minhas técnicas como violinista. Foi nesse ambiente que percebi que a música seria minha verdadeira vocação.
Então, antes do funk você estudou música clássica, certo? Como foi essa trajetória?
Minha trajetória na música começou com anos de estudo na Orquestra do Instituto Grupo Pão de Açúcar, onde desenvolvi responsabilidade com a arte. A profissão de violinista exige estudo contínuo e atualização constante, porque sempre tem muita gente buscando se destacar, como em qualquer área. Conviver no mesmo coletivo por tanto tempo me proporcionou momentos inesquecíveis, tanto positivos quanto desafiadores. Na época em que entrei, os tempos eram diferentes, e o Maestro era um exemplo de liderança em todos os sentidos, impondo uma pressão e cobranças intensas. Infelizmente, precisei me afastar após um trágico acidente em 2018.
Sinto que vivi plenamente a experiência na música clássica e, hoje, talvez não suportasse o mesmo ritmo. Ainda assim, desejo sinceramente que todas as crianças possam ter essa oportunidade. Nos últimos anos, a cultura sofreu grandes cortes em políticas de incentivo, como a Lei Rouanet e diversas emendas culturais, o que afetou o financiamento de projetos artísticos, incluindo a música clássica. Esses cortes precarizaram ainda mais o acesso à cultura, especialmente para crianças e jovens de baixa renda, que muitas vezes encontram na música uma oportunidade de transformação social. Hoje, a Baixada Santista vive uma escassez de orquestras jovens e iniciativas voltadas para a música clássica, o que é uma grande perda cultural.
Essa formação no erudito influenciou seu jeito de produzir e tocar funk? Ter essa base te acrescenta como DJ?
Totalmente. Assim que me afastei da orquestra, comecei a aplicar meus estudos de teoria musical na discotecagem. Em 2018, fiz a transição da música clássica para a música urbana, onde me encontrei artisticamente e decidi seguir outro caminho dentro da música. Ter essa base teórica e prática fez toda a diferença para mim como DJ. Acredito que, quando você entende música em sua essência, seja através de um instrumento, do canto ou da teoria, isso amplia sua criatividade e abre novas possibilidades. No meu caso, essa bagagem potencializa meu trabalho, me dá mais liberdade para experimentar e me permite enxergar o funk de uma forma ainda mais estruturada.
Quais foram os artistas, pessoas ou movimentos musicais que mais te marcaram? Tem algum nome que moldou sua forma de pensar a música?
Se eu fosse listar todos os artistas que moldaram minha perspectiva musical, poderia ficar aqui por horas. Mas, acima de tudo, acredito que a música é um sentimento transformador. Foi ela que me acolheu. Cresci ouvindo os musicais da Disney, Xuxa e os sambas-enredo das escolas que meu pai puxava. Negra Li marcou muito essa fase, assim como Claudinho & Buchecha. Michael Jackson me impactou de um jeito especial: os shows dele me faziam sonhar alto, e eu cresci pensando “quero ser um grande homem como ele”. Na pré-adolescência, me conectei com a MPB, especialmente na orquestra, onde tocávamos muita música popular brasileira. Esse contato me deixou em êxtase e aprofundou minha admiração por artistas como Gilberto Gil, Carlinhos Brown, Elis Regina, Rita Lee e Renato Russo. Cada um desses nomes, de alguma forma, contribuiu para minha visão da música como algo que ultrapassa estilos e gêneros, uma arte que emociona, transforma e cria identidade.
Além de DJ, você criou uma das festas mais populares de Santos. Como foi esse salto de artista para empresário? O que você aprendeu ao longo dessa jornada?
Aprendi que toda história tem um começo. No meu caso, esse começo foi em um momento muito difícil. Estávamos em um mundo pós-pandêmico, e eu sentia que minha carreira como DJ estava travada. Durante a pandemia, não tinha conseguido trabalhar, minhas redes sociais estavam paradas desde 2020 e conseguir uma gig parecia quase impossível. Foi então que, com o apoio dos meus melhores amigos, decidi dar um salto e criar a Fuck Party. No início, parecia loucura. A ideia surgiu numa segunda-feira, e o evento já seria na sexta-feira da semana seguinte. Eu só tinha R$200 e um sonho. Precisava de dinheiro para cobrir os custos mínimos, então pensei: “Beleza, tenho que dar um jeito.” Contei com minha melhor amiga para cuidar da porta, e o line-up foi montado com Laysa Huana, DJ Augusttinho, eu e Lorena Lauritzen. O resultado? Foi um sucesso absoluto. Até a Lia Clark estava lá naquela noite, algo que eu jamais imaginaria. O tema da festa era “Baile em 2077”, porque eu estava cansado dos mesmos rolês de sempre e queria algo à frente do tempo. A partir dessa noite, percebi que meu sonho não estava sendo realizado, ele estava apenas começando.
Hoje, você se sustenta com o funk? Ou, pelo menos, ele te dá uma boa fonte de renda?
Sim, hoje eu me sustento com o funk. Meus sets e minhas produções são minhas principais fontes de renda. Mas chegar até aqui não foi fácil. No começo, se eu tivesse alguém para me instruir ou simplesmente me dizer “calma, não larga o CLT ainda, você vai precisar investir”, talvez algumas coisas tivessem sido mais tranquilas. A vida de artista exige muito mais do que talento. É preciso estar sempre antenado, fazendo networking e, principalmente, sabendo administrar o próprio dinheiro. Aprendi que é essencial guardar uma reserva para investir na carreira e cobrir imprevistos. Viver de música é desafiador, mas também uma das maiores realizações da minha vida.
Organizar eventos de funk ainda é mais dificultoso do que outros gêneros musicais. Você já passou por situações em que percebeu o funk sendo tratado com mais rigidez do que outros estilos em Santos, por racismo e preconceito?
Sempre. O funk é o ritmo mais hostilizado do país, e organizar eventos desse gênero ainda é uma luta. Quando comecei, tive que abrir espaço para um som que não era explorado na cidade. E, até hoje, toda vez que levo meu evento para uma casa nova, preciso apresentar um verdadeiro dossiê provando que minha festa não é bagunça. O funk sofre racismo estrutural há décadas. Muito antes de eu pensar em produzir eventos, artistas já travavam uma luta constante por igualdade. Recentemente, ao pesquisar locais para uma festa, ouvi de um dono de espaço que ele tinha “uma certa aversão” a esse tipo de público, e sabemos bem o que isso significa, já que o funk é um movimento majoritariamente preto. Além disso, há uma resistência enorme dentro da própria cena eletrônica da Baixada. Muitos coletivos ainda não reconhecem que o funk é música eletrônica, só que uma música eletrônica periférica e brasileira. Mas essa resistência não vai durar para sempre. Se depender de mim, o funk vai ocupar todos os espaços, nem que seja na marra.
Para além da música, tem todo um trabalho de curadoria, público-alvo, marketing… Qual foi sua estratégia pra fazer a sua festa se destacar, e qual é a maior dificuldade na vida de um produtor?
Acredito que o que consagrou a Fuck Party como a maior festa de funk da Baixada foi a constância e a liberdade de expressão que sempre fizeram parte da nossa essência. A Fuck Party é uma experiência de baile vivida dentro de um espaço fechado, onde as bordas e a burguesia dividem o mesmo chão, ocupando espaços e realizando sonhos. Sempre fiz questão de abrir portas para artistas que vinham direto dos bailes de rua para os maiores palcos da região. Um grande exemplo disso é a DJ Bonekinha Iraquiana, que tocou em inúmeras edições da Fuck Party e consolidou a carreira, se tornando uma das DJs de funk mais importantes. DJ Thiago Martins também teve sua primeira experiência em uma festa fechada com a gente, e o mesmo aconteceu com DJ Pablo da Rua do Meio, que antes da Fuck nunca tinha tocado em grandes eventos. Não houve uma estratégia mirabolante para tudo isso acontecer, mas sim paixão pela cultura funk. O público percebeu o carinho e a seriedade da produção e abraçou a festa, o que gerou um buzz orgânico. Claro que o público da Fuck Party mudou com o tempo. Quem estava na primeira edição hoje já pode estar casado, com filhos, vivendo novas fases da vida. Mas a festa segue se renovando, mantendo a qualidade e a energia que fazem dela um sucesso até hoje.
Você acha que ainda faltam mais espaços e oportunidades pra festas e eventos de funk em Santos? Quais são os principais desafios em criar algo novo e consolidado na cidade?
Eu acredito que Santos ainda carece de espaços que valorizem e incentivem a cultura, especialmente o funk. A cidade precisa resgatar suas origens e criar uma rede de apoio para os jovens talentos. Faltam editais e programas que democratizem o acesso aos eventos culturais, além de empatia com quem está começando. A falta de acesso à cultura pode fazer com que muitos jovens percam a vontade de produzir e compartilhar suas próprias expressões artísticas, perpetuando um ciclo de desmotivação. Se os espaços fossem mais acessíveis, os resultados certamente chegariam, permitindo que os jovens iniciassem seus projetos não por revolta, mas por pura paixão e apoio. Investir em cultura é investir no futuro de Santos, e apoiar os jovens é fundamental para que novas ideias floresçam e a cidade continue sendo um celeiro de inovação cultural.
Olhando pro futuro, onde você quer chegar? Tem vontade de expandir sua festa, lançar outras produções ou explorar outros gêneros?
Meu sonho é chegar muito longe e transformar a Fuck Party em um festival anual de referência nacional, quem sabe até um “próximo Rock in Rio” (risos). Brincadeiras à parte, quero continuar crescendo, sempre inovando e trazendo as melhores festas para o Brasil inteiro. Tenho vontade de explorar diversas frentes: produzir eventos de diferentes estilos, lançar novos artistas, e até mesmo criar projetos para a televisão. Imagina produzir programas da Globo ou eventos únicos, como festas de casamento com aquele toque especial que só o funk pode dar? O importante é que, independentemente do caminho que eu venha a trilhar, o funk continuará sendo a essência do meu trabalho. Essa paixão é o que me impulsiona a explorar o novo, a criar oportunidades e a inspirar jovens.
Acompanhe Pedro Gegê:
Instagram: https://www.instagram.com/djpedrogg/
Soundcloud: https://soundcloud.com/djgegenogueira/tracks