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'Noite do Cinema Funk', em São Vicente, mostrou união de gerações e resgate da cultura
Evento aconteceu na última sexta-feira (14) para estrear o documentário 'Cabuloso', com exibição de 'Sons de Conflito'
Ver Luizinho da Bacia, MC Dany do Morrão, MC Betinho, Jorginho e MC Vanessinha reunidos em um evento, bebendo cerveja e celebrando, é um encontro marcante. Mesmo para quem não viveu os anos 90, período em que o funk se consolidou na Baixada Santista, a importância desse momento é evidente. O evento, chamado Noite do Cinema Funk, exibiu dois filmes que destacam a força do ritmo e a participação feminina, tornando a ocasião ainda mais significativa.
O Espaço Multicultural de São Vicente, localizado na Biquinha, foi palco para esse evento que resgatou o movimento funk e uniu gerações. A Alce Negro, produtora audiovisual da Baixada Santista, lançou o documentário ‘Cabuloso’, que retrata as origens do funk 013 nos anos 90. O filme usa os próprios relatos dos MCs como narrativa, sem precisar de grandes dispositivos, ou seja, o uso de muitas imagens de arquivo e encenações ou presença de narrador.
A história do funk 013 é fluida e se complementa. Ela forma um único enredo, onde cada relato se soma ao outro, mantendo a essência intacta. Mesmo com várias pessoas contando, a história permanece a mesma, com cada fala enriquecendo a narrativa. ‘Cabuloso’ transmite essa continuidade para quem assiste. A equipe de produção deste documentário pertence a gerações posteriores à dos MCs, e demonstra um profundo respeito pelo movimento.
O filme inicia com uma homenagem à trajetória da dupla Jorginho e Daniel, primeiros MCs da Baixada Santista, pioneiros da cultura. A encenação mostra a participação deles nos famosos concursos de MCs, onde Meire, conhecida como ‘matriarca do funk’, participa nesse início. Logo depois, os próprios artistas performam ‘Estilo Funkeiro’, momento que deixa qualquer um arrepiado.
Em entrevista para Sons de Conflito, Jorginho, membro da dupla, afirmou sentir-se honrado pela homenagem. “A vitória é de todos nós, funkeiros, que lutaram contra o preconceito e discriminação. Nós cavamos o buraco, hoje todo mundo está desfilando e vivendo do funk. Isso é muito importante”, apontou. Ele também lamentou por ter perdido alguns amigos MCs, e eles não poderem participar deste momento. “Todos têm uma participação muito importante no funk, eu fico contente de ser amigo de todos eles. Infelizmente, na caminhada, perdemos muitos amigos que fizeram parte disso tudo, mas Deus sabe de tudo”.
O documentário conta com relatos de DJ Rhuivo, Rodjhay, MC Fredinho, MC Dany do Morrão, MC Bola e diversos nomes que pavimentaram o caminho e, como eles gostam de dizer, ‘costuraram a bandeira’. ‘Cabuloso’ é um documento, um registro para que as próximas gerações funkeiras assistam e saibam qual caminho trilhar. Para que tenham respeito pelo movimento, e saibam o que é a verdadeira cultura funk na Baixada Santista. Na sessão, tinham diversas crianças, jovens, adultos e idosos. O mais legal foi que todas essas pessoas interagiram de igual para igual, trocando ideias e afetos.

Público durante sessão (Foto: Raphaella Santucci)
Breno Garcia e Guilherme Rosa, diretores do filme, afirmaram que estão falando sobre uma paixão deles. “Estamos passando um filme sobre uma cultura marginalizada que o Estado tenta assassinar, tentando transformar essa cultura em arte. É uma alegria contar essa história que não é nossa, mas é uma história que a gente ama”, disseram. O documentário será lançado na internet em breve.
Funk feminino 013
O evento teve exibição de ‘Sons de Conflito’ na abertura, mostrando o funk santista sob a perspectiva de mulheres que fazem e articulam o funk na região. A produção traz relatos de MCs, DJs e produtoras que enfrentam desafios no cenário musical, destacando suas trajetórias, conquistas e a resistência feminina dentro do funk. A exibição provocou reflexões sobre representatividade e a importância de valorizar o papel das mulheres no movimento.
“As cortinas foram abertas. Pra mim é uma gratidão enorme mostrar o funk da Baixada, e que as mulheres também estavam lá costurando a bandeira. Valeu a pena cada lágrima, cada microfone que foi tirado, cada vez que andamos a pé no meio de tiro. Sei que vai inspirar outras meninas”, disse MC Dany do Morrão, que fez parte dos dois documentários. Assista Sons de Conflito aqui.